Chamado de chorão, Túlio rebate presidente do Bota: “Baixo e covarde”

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Quando narrava contos de fada para a filha, Túlio costumava dizer que a bruxa má vivia num castelo chamado Flamengo. Agora, entretanto, o inimigo se chama Botafogo, clube pelo qual atuou durante cinco anos. Duramente criticado pelo presidente Carlos Eduardo Pereira por conta de uma ação na Justiça em que cobra cerca de R$ 1,5 milhão em salários e outros pagamentos atrasados, o ex-jogador se mostrou abalado. Vivendo em Brasília (DF), onde é dono de restaurante e outros empreendimentos – além de gerente do Sobradinho –, ele decidiu responder o mandatário.

Numa entrevista, Carlos Eduardo Pereira usou o termo “chorão” para se referir a Túlio. Tudo por conta da atitude do então camisa 5 do Botafogo na final da Taça Guanabara de 2008, contra o Flamengo, em que se revoltou contra o árbitro Marcelo de Lima Henrique a acabou expulso. Ao fim da decisão perdida, Túlio, todo o time e o então presidente Bebeto de Freitas, estimulados pelo técnico Cuca, se dirigiram à imprensa, muitos às lágrimas, para protestar.

A revolta, agora, é contra o presidente do Botafogo. Túlio admite que não é o ideal que Carlos Eduardo Pereira tenha seus bens em risco por conta de uma dívida contraída pelo clube. Mas também entende não ser justo ser apontado como vilão após, segundo ele, várias tentativas de um acordo financeiro sem a interferência da Justiça, algo que ele buscava desde que deixou o clube, em dezembro de 2008.

Confira a entrevista de Túlio ao GloboEsporte.com

GloboEsporte.com: Como tem sido vivenciar essa disputa judicial com o Botafogo?

Túlio: É triste chegar a esse ponto de ter que colocar o Botafogo na Justiça. Saí em 2008 com a diretoria me prometendo que me manteria na folha do ano seguinte para pagar os atrasados. Logo no primeiro mês eu vi que isso não era verdade, já me tiraram da folha. De lá pra cá foram só promessas de acordo, eu cobrando pessoalmente, sem advogado. Eles me enrolaram, eu tinha até dois anos para requerer a dívida na Justiça para não prescrever. Esperei um ano e 10 meses e só não esperei mais um mês porque teria o recesso e eu perderia o prazo. Então entrei com a ação no fim de 2010

De que forma reagiu à resposta do presidente Carlos Eduardo Pereira em relação a você?

Foram declarações absurdas. Parece que eu que sou o vilão por ter cobrado uma dívida trabalhista. Não estou entendendo em que ponto ele quer chegar. Acho que quer me transformar em vilão ou fazer minha caveira com a torcida. Só tivemos pessoalmente um contato, que foi aqui em Brasília, e ele foi muito mal-educado comigo. Claro que a dívida não é dele, é do Botafogo, mas ele assumiu sabendo que era um clube endividado. Quem determina o caminho jurídico é o advogado, e eu não sou advogado para saber qual o melhor caminho. Ele agora está cuspindo fogo, atirando pedra em mim do nada, dizendo que eu não poderia ter feito isso com o Botafogo. E os dirigentes podem fazer o que estão fazendo comigo? Quem faltou com respeito foi ele. Eu fiquei cinco anos no Botafogo com dedicação total. Em 2006, saí para o Japão sabendo de uma dívida de FGTS. Poderia ter saído na Justiça, sem que o clube recebesse a multa rescisória. Em 2007 voltei tendo uma proposta mais alta do Fluminense e de outros clubes. E agora ele vem me atacar, dizer que sou conivente com um flamenguista. Agora vou bater na porta de advogado perguntando para qual time ele torce? É um absurdo o que ele está falando e não está se colocando na minha posição.

O presidente se queixou do fato de você buscar receber o valor devido fora do Ato Trabalhista. Como vê essa situação?

Eu acompanhava o Ato e achei excelente quando o Botafogo entrou. Mas na gestão do ex-presidente, o Botafogo furou o Ato por conta própria. Quem garante que não vai fazer de novo? Eu não sou advogado, eu contratei um porque o clube não quis fazer um acordo comigo. O Renato Blaute (diretor financeiro da época) me mandava emails me enrolando para a dívida prescrever, como seu eu fosse um ignorante e não soubesse disso. Eu dizia que poderia fazer um acordo do jeito que fosse bom para o Botafogo porque não queria chegar ao ponto de levar para a Justiça. Mas nunca mandaram proposta alguma. Por que o presidente também não me procurou e propôs um acordo? Foi falta de consideração e má-fé.

Uma das queixas de Carlos Eduardo Pereira é o fato de terem sido colocados em risco bens pessoais dele e de outros integrantes da diretoria.

Não acho justo que pague com os bens dele uma dívida que o Botafogo construiu. Mas também não acho justo que negligencie uma dívida que é do clube e que eu tenho direito de receber, porque trabalhei para isso. Meu sentimento de amor pelo Botafogo não tem nada a ver com isso. Não é porque tenho o maior carinho do mundo que vou abrir mão de um dinheiro que tenho para receber e que trabalhei com muita dignidade.

Como foi ler o presidente do Botafogo usar o termo “chorão” para ser referir a você?

Foi difícil escutar isso do presidente do clube pelo qual eu mais tenho amor. Meus filhos e minha família são Botafogo, tenho tudo do Botafogo aqui em casa. Nunca vou deixar de ser Botafogo por causa de um cara que assumiu a presidência e trata os ex-jogadores como ele tem me tratado. Se eu chorei foi porque tive respeito e paixão pelo clube. Chorei num momento em que não podia mais fazer nada, que tinha esgotado minhas forças depois que coisas externas tiraram um título do Botafogo. Chorei por impotência. Da mesma forma que me estou me sentindo agora por não poder me defender dessas palavras, porque jamais eu gostaria de chegar ao nível de discutir com o presidente do Botafogo pela mídia. Um cara que está sendo baixo e covarde comigo. Ele sabe que minha voz não vai ter o mesmo poder da dele. Está fazendo isso comigo covardemente.

Qual a impressão que fica por conta desse imbróglio judicial que se arrasta há cinco anos?

A verdade é que ele e a gestão passada pensam só em empurrar a dívida do Botafogo para a frente. Nenhum deles pensa no bem do cube, só em fazer o bem para sua própria gestão. Se o Botafogo for campeão da Série A no ano que vem e triplicar sua dívida, eles estão pouco se lixando.

Você teme que após esse episódio você fique marcado negativamente juto à torcida do Botafogo?

De maneira alguma. Na sexta-feira o Botafogo joga em Brasília (contra o ABC, no Mané Garrincha) e eu vou como torcedor comum, na arquibancada. Muitos torcedores daqui prestaram solidariedade a mim. Isso é o que que vale. Não é o presidente com palavras ofensivas. Uma discussão que poderia ser em alto nível ele está levando para um baixo nível que eu não vou cair. Ele não vai conseguir colocar em dúvida o sentimento que eu tenho pelo Botafogo. Eu sei o que sinto por esse clube, e o que eu tive com o Botafogo ninguém vai apagar. Quem tinha que estar com vergonha dessa situação era o presidente, não eu. Se eu não estou no meu direito, a Justiça vai dizer.

Fonte: Globoesporte.com

Sobre o autor
Botafoguense desde a Escandinávia. Jornalista e torcedor de arquibancada. Desde sempre vivendo 24 horas o nosso glorioso.