Botafogo e Grêmio representam formas opostas de entender o jogo

O futebol costuma produzir passagens especialmente fascinantes quando partidas se transformam num duelo de ideias, de formas antagônicas de entender o jogo. As propostas e os estilos, retratados fielmente nos números, colocam Botafogo e Grêmio em dois extremos. Os rivais abrem nesta quarta-feira o mata-mata pelas quartas de final da Libertadores, às 21h45m, no estádio Nilton Santos.

E o fazem com um ingrediente intrigante. As circunstâncias que envolvem o jogo dão a ambos algumas razões para abandonarem convicções, algo talvez mais nítido no Grêmio. Não seria surpresa ver Renato Gaúcho mais conservador, tentando tirar o Botafogo de sua zona de conforto, entregando a bola ao rival.

— Nunca fomos time só de contra-ataque. Não foi assim que eliminamos Colo Colo, Olimpia — avisa Jair Ventura.

O fato é que se encontram o time que mais desarma e um dos que mais passam e finalizam na Libertadores. Duelam a defesa menos vazada e o melhor ataque dentre os remanescentes no torneio. O Botafogo é, dos times brasileiros, um dos que têm mais bem resolvida a identidade de equipe reativa, para usar um termo do momento. Ou seja, não se constrange em preferir a marcação forte e o contragolpe. Uma cultura de jogo que conquistou até a arquibancada. No Nilton Santos, raramente uma postura cautelosa será condenada pelo público.

Já o Grêmio, em seus melhores momentos do ano, foi o time do país que melhor lidou com a posse de bola. Na terra em que o contra-ataque se tornou hegemônico, o Grêmio tornou-se exceção como o time da troca de passes, das triangulações, das soluções ofensivas que lhe tiravam o receio de atacar, de propor o jogo, outro termo da atualidade.

MODELOS OPOSTOS

Ocorre que não é possível garantir que o Grêmio entre em campo tão irredutível em sua disposição de ter a bola. Nas últimas duas semanas, começou a sofrer baixas importantes. A primeira, a venda do atacante Pedro Rocha, peça importante na construção ofensiva. Mais recentemente, surgiu a quase certeza em torno da ausência de Luan, o homem do último passe, da capacidade de finalizar, o jogador com mais capacidade de desequilíbrio. O zagueiro Pedro Geromel, dos melhores do país, também é dúvida. Se o investimento do Botafogo é menor, se é verdade que o elenco alvinegro é menos farto, a diferença nunca pareceu tão pequena. Diante dos problemas, o Grêmio pode especular com o fato de, daqui a uma semana e com seus jogadores fisicamente em melhor condição, fará em casa a partida de volta.

Não é habitual que o Botafogo assuma o controle do jogo e tente pressionar desde o início. Sente-se mais confortável de outra forma. O jogo dirá se os desfalques do rival e a força de seu estádio levarão o alvinegro a um jogo mais ousado.

Os números mostram como o Botafogo domina a arte de defender. Dos 16 times que disputaram fase de grupos e oitavas de final, o alvinegro é o que mais desarmes tentou e o segundo que mais acertou, com 17,6 por partida, de acordo com o Footstats. Sofreu só cinco gols desde a fase de grupos, em oito jogos, e é o segundo que mais rebateu bolas, 37,1 por partida.

MISTÉRIO DE JAIR

Já o Grêmio se destaca nas estatísticas ofensivas. Tem a terceira maior quantidade de passes certos até aqui no torneio: 384,8 por jogo. E foi o segundo que mais finalizou, com 5,8 tiros com direção a gol por partida. Os números não consideram as fases iniciais em que o Botafogo eliminou Colo Colo e Olimpia. No Campeonato Brasileiro, após 23 rodadas, as tendências se mantêm (veja o infográfico ao lado).

Jair Ventura deixou no ar uma dúvida: João Paulo e Léo Valencia disputam uma vaga no meio-campo, como o homem que atuará por trás de Roger. É uma função importante, porque será chave pressionar os volantes do Grêmio, em especial Arthur, de alto índice de acerto nos passes e ótimo organizador de jogo.

Rodrigo Lindoso deve retomar seu lugar à frente da zaga e, ao lado de Matheus Fernandes, deve enfrentar Léo Moura como meia centralizado, caso se confirme a ausência de Luan. Em tese, a vitalidade dos volantes pode favorecer o Botafogo no setor. Volante de origem, o gremista Ramiro deve ser mantido como meia pela direita. Por ali, o Botafogo tem importante válvula de escape no contragolpe, com Rodrigo Pimpão. Um bom duelo.

Apesar de ter sido envolvido pelo Grêmio na derrota do primeiro turno do Brasileiro — no segundo turno, o jogo reuniu times desfigurados —, o Botafogo tem se mostrado forte tática e mentalmente. Após a eliminação diante do Flamengo na Copa do Brasil, derrotou o Bahia e bateu o rival rubro-negro pelo Brasileiro.

— Tivemos reação rápida. É o nosso clima — disse Jair.

Fonte: O Globo Online

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