A crítica devastadora de um cartola corajoso

Hoje o Mundo Botafogo apresenta o terceiro artigo da série que contribui para evidenciar a ascensão e queda do Botafogo entre 1957-1972. Após a entrevista de Sandro Moreyra, em dois tempos, segue-se excertos da entrevista publicada a 13 de Julho de 1984, no nº 738 da Placar Magazine, referente a Emmanuel Sodré Viveiros de Castro, filho do fundador Eurico Pargas Viveiros de Castro e sobrinho de Mimi Sodré, eleito presidente do Botafogo em 1983, sonho que sempre acalentara.

Sob o título ‘A crítica devastadora de um cartola corajoso’, a entrevista a Maninho, apelido carinhoso de Viveiros de Castro, é bem reveladora da época em que se vivia no Botafogo. Considero a entrevista muito interessante de todos os pontos de vista. Não quero influenciar o leitor sobre quaisquer interpretações e, por isso, publico alguns excertos, sem comentários, apenas subtitulando as observações mais pertinentes de Maninho.

Foto Maninho
Eu gostaria de conhecer a opinião dos leitores sobre as matérias abordadas.

O CARGO DE PRESIDENTE

Não aceito ser reeleito e digo, do fundo da alma: este cargo é um ônus muito pesado. Se eu imaginasse, talvez não tivesse aceitado.

REMUNERAÇÃO DE DIRIGENTES

Sou advogado e preciso ganhar a vida. Eu só acredito em dirigente remunerado. Não entendo como um dirigente pode chefiar uma delegação ao Mato Grosso ou, por exemplo, como o ex-presidente do Flamengo, Dunshee de Abranches, foi ao Japão com o time. De que vivem estes homens? O futebol precisa de homens remunerados.

A CRISE E O BOTAFOGO SOCIAL

Estamos na pior crise da nossa história: temos hoje apenas 2.796 sócios, que contribuem com 5.000 cruzeiros mensais e só têm um direito – o de pagar. […] É balela esta história de que a torcida paga. Só paga se a equipe andar bem. Infelizmente, o Botafogo terá de abandonar a idéia de que é só de futebol. Este período chegou ao fim, que me desculpe o João Saldanha. […] Agora mesmo, remodelamos toda a nossa sede de remo, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Está uma beleza. Então, engrandeci parte do Botafogo, o Botafogo ligado a Regatas. Ih… o João Saldanha não vai gostar desta declaração

A VENDA DE GENERAL SEVERIANO E AS DÍVIDAS DOS CLUBES

Quero dizer que errei, no tempo do Charles Borer, em votar a favor da venda de General Severiano. Registre: Sandro Moreyra, que tanto critica, também votou a favor. Votamos porque devíamos cerca de 50 milhões de cruzeiros à Caixa Econômica e com isso saldaríamos a dívida. Burrice. O Flamengo deve mais de 500 milhões e o presidente Figueiredo não deixa cobrar. […] Porque o governo ainda usa o futebol. Na crise atual, com o povo querendo diretas já, o PDS implodindo, Figueiredo sai de Brasília para participar de um almoço pelos 70 anos da CBF. Isto é ridículo, pois o presidente deveria estar à frente do destino da nação. Mas o futebol melhora a imagem e não pede nada em troca.

A MORALIDADE DE GESTÃO DE DINHEIROS DO CLUBE

Eu me orgulho do cargo que ocupo, mas é um fardo. Tive um dirigente de futebol que, numa excursão ao Nordeste, tirou dinheiro da renda para seu próprio sustento. Reclamei e ele me disse: “Você é radical, Maninho.” Não estou acostumado a lidar com gente assim.

OS SUBORNOS

Num país com estas dimensões e com esta pobreza, é fácil o suborno. Sem citar nomes, temos dois casos registrados no Botafogo. Temos os indícios, mas não as provas finais porque esses delitos não deixam marcas. Os dois ainda estão jogando no Botafogo, mas serão vendidos rapidamente. Em duas partidas do campeonato carioca, recebemos a informação de que um deles iria amolecer. E ele errou realmente bolas que, nos outros jogos, acertava sem maiores atropelos. […] Recebemos ainda outras informações, mas são tão delituosas que eu prefiro calar.

OS POTENCIAIS INVESTIDORES

Quem tem dinheiro só quer mesmo dar declarações. Na hora decisiva, foge. Veja o Walter Moreira Salles, dono do Unibanco, grande botafoguense. Fomos pedir a ele ajuda em publicidade, propusemos um negócio. Sabe qual foi a resposta? “Faça o pedido oficialmente que eu o colocarei na fila. Voltamos a falar do assunto em 1986.” Mas nos jornais, aparecem tais homens preocupados com os destinos do Botafogo.

A IMPRENSA SEM CULTURA

A imprensa é mal informada e culturalmente mal preparada. Outro dia, um repórter não sabia o sentido da palavra ‘penhora’. Vejam os meus críticos mais veementes: os senhores Sandro Moreyra, do Jornal do Brasil, e Márcio Guedes, da TV Globo, botafoguenses, e o próprio Jornal do Brasil. Sandro Moreyra diz que não vai a Marechal Hermes porque tem mosquito e ele nem mesmo sabe onde fica. Imaginem, então, seu grau de informação. Márcio Guedes liga para a minha casa para conversar sobre o Botafogo e eu digo confidencialmente “Se eu quisesse jogo do bicho no clube, iria para o Bangu, que já está estruturado”. Ele publicou, eu não desmenti, mas disse que ele tinha sido leviano. Ele se tomou de ódio por mim e passou a me criticar a todo instante, prejudicando o clube pelo qual torce.

A PROMISCUIDADE ENTRE POLÍTICA, FUTEBOL E JOGO DO BICHO

Fui contra [o jogo do bicho], mas recebi um recado de uma freira amiga: “Maninho, isto é a coisa mais honesta deste país.” […] Ora, os secretários da Segurança querem a legalização do bicho, Castor de Andrade1 é recebido no camarote do governador Brizola e anda com o filho do presidente Figueiredo.

1 Para quem não sabe, Castor de Andrade era o bicheiro mais poderoso, influente e temido do Brasil nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Foi presidente do Bangu no período em que a agremiação conquistou o seu 2º título carioca em 1966, e vice em 1964, 1965 e 1967. Foi suspeito de subornar Manga na decisão do Campeonato Carioca de 1967, vencido pelo Botafogo à tangente, e foi ainda quem invadiu a televisão com seus seguranças e puxou de uma pistola em pleno programa de televisão ameaçando João Saldanha, que, sem medo do feroz bicheiro, enfrentou o adversário de peito aberto – e, acrescente-se, Saldanha não faleceu vítima de um revólver ameaçador ou de uma bala impiedosa, mas, tal certamente desejaria, faleceu de morte natural ao serviço do futebol na Copa do Mundo de 1990. Castor de Andrade tinha um poder tal que levou militares da Ditadura a aconselhar o secretário da segurança do Rio de Janeiro, general Waldir Alves Muniz, a evitar problemas com o bicheiro, assim como levou o ex-presidente Figueiredo a quebrar o protocolo em certa ocasião para se dirigir a Castor de Andrade e cumprimentá-lo pessoalmente. O poder de Castor de Andrade chegou ao caricato mais absurdo que se possa imaginar num País Ocidental: preso em 1994, três anos antes de sucumbir a um ataque cardíaco, transformou a prisão em suites de luxo, com ar condicionado, lavadora de roupa, frigobar, televisão e vídeocassestes, além das festas na prisão regadas a champanhe e caviar, bem como se tornou o benemérito que financiou a reforma das instalações prisionais e o conserto de carros policiais!!!
Fonte: Mundo Botafogo

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