Meia do Botafogo superou surdez e usou Google Tradutor para virar Don Juan na Itália

Octavio

Octávio Merlo Manteca, meia do Botafogo, tem apenas 22 anos, mas já tem muita história para contar no futebol. Promessa da base alvinegra, ele fez parte da conquista do Campeonato Carioca de 2013 e da Série B de 2015 no “Glorioso”. Entre 2014 e 2015, no entanto, passou um tempo por empréstimo na Fiorentina, da Itália, de onde trouxe uma quantidade incrível de “causos” dos mais diversos tipos.

Galã desde os tempos de base, ele viveu um curto, mas tórrido romance com uma garota italiana quando morou em Florença, aos 20 anos, durante um período de empréstimo do Bota. O duro foi se comunicar sem saber uma palavra de italiano.

“Quando cheguei na Itália, não falava uma palavra de italiano e precisava me virar. Tive uma história com uma italiana, que começou numa discoteca de um amigo brasileiro. Num dia de folga, eu fui e ela estava lá. Falei que queria dar um beijo, e ela ‘o que é isso?’. Aí eu só sabia falar: ‘Brasile, Brasile’ (risos). Ela falou que não estava ententendo, aí eu resolvi direto mesmo: peguei e dei um beijo nela”, conta o meia, ao ESPN.com.br.

Na hora de conversar e aprofundar o romance, mais dificuldades.

“Peguei o WhatsApp dela e fui conversar. Usava o Google Tradutor no italiano e o xaveco comia solto. Fui aprendendo aos poucos a falar umas coisas, mas acho que traduzia tudo errado no começo. Eu queria levá-la pro motel, mas lá não tinha. Estava há um tempão sem nada, naquela seca, e disse que queria fazer amor com ela. Sei lá se ela entendeu, mas no fim ela topou (risos)”, lembra.

Quando achou que ia se dar bem, Octávio se complicou pra valer.

“No dia em que marcamos, o técnico deu dois períodos de treino, fiquei morto. Daí fomos pra boate e depois fomos pra um campo de beisebol do lado da casa dela. Eu todo ‘malandrão’, começamos o ‘bem-bom’ e daí me deu uma cãibra (risos)! Eu não sabia o que fazer, e ela não estava entendendo de nada, só ficou assustada porque eu gritava de dor (risos). Acabou minha noite ali. Foram dois minutos de puro prazer (risos)”, diverte-se.

Na Fiorentina, o armador também se complicou com a comissão técnica logo na chegada, e por um motivo inusitado: não conhecer o treinador da equipe, o ex-atacante Vincenzo Montella, famoso por suas passagens por Roma e seleção italiana.

“No meu primeiro treino, cheguei de bermuda, regata e moletom, isso é normal no Brasil, mas eu não sabia como era lá. Nisso chega um cara pra mim e fala: ‘Tá indo pra praia?’. Quando fui cumprimentar todo mundo, dei a mão pra todo mundo e pra ele novamente, pois não o reconheci, aí ele manda: ‘De novo?’. Eu fiquei puto, pensei: ‘Quem é esse marrento aí?'”, relata.

“Daí teve a apresentação do uniforme mais tarde e perguntei ao (goleiro brasileiro) Neto: ‘Tem um baixinho marrento pra caramba aí que eu 30 minutos me deu 30 esporros. Quem é esse cara? Ele se acha o f…, mas deve ser um m…’. E o Neto responde: ‘É o nosso treinador’ (risos). Aí já pensei: ‘f…, não jogo nunca mais, já era’ (risos). Mas depois foi tranquilo, ele levou na boa. Duro foi levar dois esporros na minha primeira meia hora no time”, sorri.

Das roupas falsas à camisa de Alex

Octávio começou a jogar bola em uma escolinha da prefeitura do Rio, comandada pelo ex-zagueiro Gonçalves, ex-Flamengo, Botafogo, Cruzeiro, Internacional e seleção. Depois, jogou no time da Universidade Estácio de Sá antes de chegar ao “Glorioso”, em 2009, aprovado em uma peneira.

Nos tempos de base alvinegra, viveu outras histórias engraçadas.

“Uma vez fomos jogar um torneio de base na Itália, no qual enfrentamos Milan, Juventus e Lazio. Acabou a competição e no dia seguinte íamos voltar ao Brasil. Aí eram umas 4h30, tinha piscina no hotel e resolvemos dar um mergulho. Fomos de cueca mesmo, mas aí chegamos lá e tinha um casal transando na piscina (risos)”, gargalha.

“A gente atrapalhou o amor deles, coitados (risos). Eles colocaram a roupa rapidinho e saíram correndo, morrendo de vergonha, e nós rimos a noite toda”, conta.

O meia subiu para o profissional em 2013, a pedido do técnico Oswaldo de Oliveira. Fez sua estreia contra o Volta Redonda, no Campeonato Carioca, e marcou seu primeiro gol no time adulto ainda naquele ano, contra o Criciúma, pelo Brasileirão.

Dessa época, guarda um presente especial: uma camisa do ex-meia Alex, seu grande ídolo de infância, que conseguiu em uma partida contra o Coritiba.

“Ele sempre foi meu jogador favorito. Troquei camisa com ele, mas estava nervoso demais na hora de pedir, deu até tremedeira, mas no final ele me deu. Tenho ela guardadinha até hoje, nessa ninguém encosta”, brada.

No entanto, Octávio não viveu só alegrias quando foi promovido aos profissionais. Em meio aos “medalhões” botafoguenses, sofreu com o bullying e a tiração de sarro dos colegas de equipe.

“O (lateral) Edílson e o (zagueiro) Bolívar acabaram com as minhas roupas. Na época, eu e os outros moleques da base só usávamos roupa falsificada, eles viam e rasgavam tudo. ‘Pô, Bolívar, qual é? A gente já não tem quase nada e vocês ainda detonam nossa roupa?’. E ele respondia: ‘Você agora é profissional, usa coisa decente’ (risos). Eles rasgavam mesmo, não estavam nem aí. Perdi muita roupa lá”, lamenta.

Superando a surdez

Além das dificuldades naturais que todo boleiro enfrenta para se firmar na concorrida carreira de jogador, o meia também teve que superar um fator extra: a surdez de um ouvido, que o atrapalhava desde os tempos de escola.

O problema foi fazer seu pai acreditar nisso…

“Sou surdo de um ouvido desde criança, pois tive uma infecção e ninguém sabia direito o que era. Na escola, a professora falava, falava, mas eu não entendia nada. Aí sobrava pra mim, e os professores mandavam recado em casa. Aí meu pai um dia ficou puto: ‘Ele está se fazendo de surdo! Como você não escuta?'”, lembra.

“Ele me mandou ir pra cozinha e pegar o telefone lá. Daí eu escutava ele berrando do lado de fora: ‘Otávio, responde!’. E eu estava escutando, lógico. Aí ele brigava comigo: ‘Você está de sacanagem, moleque’. Mas não tinha como não escutar, ele gritava, berrava (risos)!”, diverte-se.

Durante um tempo, aliás, sua surdez foi confundida até com “marra” por seus colegas de equipe, adversários e treinadores.

“Fui fazer todos os testes e realmente não ouço nada em um ouvido. Na base, algumas pessoas achavam que eu era ‘marrento’, mas é que eu não escutava nada, mesmo! Os caras me chamavam, mas eu não respondia”, recorda.

Mas essa não foi a única dificuldade que Octávio e sua família tiveram que superar antes do garoto se enveredar pelo mundo da bola.

“Meu pai tinha uma empresa que vendia cadeiras, mas ela faliu e perdemos tudo. Minha família vendeu tudo o que tinha, teve dias que tinha só pão pra comer na janta. Quando estávamos bem, a casa vivia cheia, mas depois ficou vazia, vazia… Meu pai ficou mal, triste mesmo. Ele não tinha condição nem de comprar uma chuteira pra mim, eu usava uma toda aberta e rasgada que eu tinha”, conta.

Hoje a situação da família Melo Manteca já é bem mais tranquila, mas Octávio se lembra bem das lágrimas de seu pai nos tempos de aperto.

“Teve um dia que fomos numa ponta de estoque comprar uma chuteira, mas ela era bem maior que meu pé, tamanho 43, porque as outras do meu tamanho eram muito caras. Nós saímos e meu pai começou a chorar: ‘Eu sei que você calça 40, mas não dava pra comprar do seu tamanho. Me desculpa'”, emociona-se.

“Daí antes do jogo eu calçava dois meiões, forrava a chuteira e ia pro jogo. Ficava parecendo um pé de pato, atrapalhava pra caramba, mas nunca reclamei. Faria por ele todos os sacrifícios, pois sei que ele fez todos por mim”, encerra.

Fonte: ESPN.com.br

Sobre o autor
Botafoguense desde a Escandinávia. Jornalista e torcedor de arquibancada. Desde sempre vivendo 24 horas o nosso glorioso.