Moço, apenas me leve para casa!

O profissional que mais admiro no mundo é o professor. Não porque ele é modelo, porque ensina ou porque cuida, mas porque o bom professor nos faz sonhar. Mais ainda, nos faz acreditar em nossos sonhos. E tudo fica mais fácil quando acreditamos. Nesse quesito, Professor Jair está de parabéns. A cada dia, nossa torcida — habitualmente pessimista — tem acreditado mais na conquista dessa Libertadores. O que em janeiro era improvável vai ficando tangível, verossímil.

Hoje, como de costume, fui ao estádio. Como tenho poucos escolhidos na família, quase sempre cumpro esse ritual sozinho. Dias de jogo são singulares. Saio do trabalho cansado (ou de casa, meio preguiçoso, nos finais de semana), com vários problemas pra resolver, mas, quando chego no estádio, embarco em uma viagem para outro mundo. Tudo ali me apetece, desde a caminhada da estação de trem à entrada até o apito final e a resenha com os “amigos de estádio” (aqueles que você dificilmente vai encontrar novamente, mas foram os que sofreram contigo numa derrota ou te abraçaram emocionados depois daquele gol de bicicleta). Futebol é fenômeno antropológico, meus caros!

Cheguei ao estádio, entrei, doei uns casacos e subi. Metade do estádio já estava tomada pela torcida, e os times aqueciam no gramado. Pensei: Hoje isso aqui vai pegar fogo. Quando os times entraram pra valer em campo, e a torcida começou a cantar… foi praticamente uma epifania. Naquele momento, percebi o quanto ser botafoguense faz parte de mim, da minha vida. Não que eu nunca tenha me dado conta disso. É que, nesses momentos, essas coisas mexem, de uma forma estranha e bonita, com a gente. Eu não sabia se cantava, se chorava, se sorria, se filmava… Tem muito do Botafogo em mim, e boa parte de mim pertence ao Botafogo. Realmente, não é só futebol.

Não preciso falar da partida. Afinal, 6 minutos de jogo não rendem tanta resenha assim. O que posso afirmar com convicção é que esse elenco me dá orgulho. Me faz sonhar. O Nacional pode ser o Nacional, mas o Botafogo é do Mundo! Obrigado, Jair! Obrigado, time! Obrigado, torcida! Quanto aos demais, podem nos chamar de azarões, zebras, limitados, sortudos… Não me importa. Podem quebrar nossas cadeiras. Isso a gente conserta. Quanto menos acreditam em nós, mais acredito em nós.

Na saída do estádio, meio cansado, meio eufórico, pedi um carro particular em um desses aplicativos. Demorou, mas chegou. Com 40 mil torcedores na redondeza, o transito não poderia estar pior. O motorista, então, perguntou:

Senhor Luan, o senhor tem algum trajeto preferido ou posso seguir o GPS?

No alto da minha poesia, sem vergonha alguma, respondi:

Moço, estou em êxtase. Sei que já estou em casa, mas me leva pra casa, por favor. Quero deitar na cama e ter a certeza de que ainda estou sonhando e só vou acordar quando esse sonho for realidade.

Amigos, torcer pelo Botafogo qualquer um torce. Sem demagogia. Mas ser Botafoguense… ah, isso é para poucos! É muito mais do que vestir uma camisa e sair cantarolando por aí. Ser Botafoguense é fazer do Botafogo sua personalidade, “sua senha para a cidadania”.  O Luan? Ah, sim! O Botafoguense!

Alguns amigos que não gostam de futebol me perguntam:

Você gasta dinheiro com jogo, camisa, sócio-torcedor… O que você ganha com isso?

Eu respondo:

Nada, mas é um nada que me faz tão feliz…

Torçam pelo Botafogo sempre, mas lembrem-se. Ser Botafoguense é um processo de amadurecimento. De vida.

Sobre o autor
Nunca fui levado a estádios nem fui influenciado por ninguém a escolher meu time, o que me leva a crer que ser alvinegro é mesmo uma predestinação celestial. Sou Professor de Língua Portuguesa e especialista em Gestão de Pessoas, mas nada disso me traz tanta realização quanto ser Botafoguense. Sou fã de Garrincha e Túlio Maravilha, que inclusive deram nome a meus dois cachorros. Respiro em preto e branco. Não uso vermelho e preto. Jamais.