Ídolos: são tantos que até esquecemos de alguns – Parte 1

Eleito pela FIFA como um dos doze maiores times do mundo no século XX. Possui dois dos quatro jogadores brasileiros na seleção do século XX, também eleita pela FIFA (Nilton Santos e Garrincha – Djalma Santos e Pelé são os outros dois). É o clube que mais cedeu jogadores para a Seleção Brasileira em Copas do Mundo, bem como também tem o maior número de jogadores campeões com a camisa canarinho. O que dizer de um time como o Botafogo, com todos esses predicados?

Garrincha, Didi, Nilton Santos, Quarentinha, Zagallo, Gérson, Manga, Heleno, Amarildo, Jairzinho… É tanto ídolo reconhecido mundialmente que jogou pelo Botafogo que, por muita das vezes, nos esquecemos de citar craques maravilhosos que fizeram parte de nossa gloriosa história. É o excesso de ídolos que nos faz ser injustos.

Enquanto outros clubes tradicionais do nosso futebol precisam “disputar” com outros times para ter “o maior ídolo de sua história” (vide o caso do Fluminense e Corinthians, que disputam Rivellino para o posto), ou possuem ícones com pouquíssimo ou nenhum reconhecimento internacional (casos do Flamengo com o Zico e Vasco com Roberto Dinamite); o Botafogo tem craques para dar e vender.

Podemos dizer que todo botafoguense é mal acostumado por ter tantos ídolos. Talvez isso explique nosso lado exigente, de não idolatrar qualquer jogador por meia dúzia de partidas bem jogadas. Enquanto outros clubes acham que qualquer perna de pau vira ídolo por duas semanas, no Botafogo é diferente. Nosso conceito de ídolo é mais rigoroso em virtude de tantos ídolos que temos de renome internacional. Mas, nem por isso, podemos ser relapsos com outros ídolos e craques menos badalados. Não é porque temos muitos que precisamos deixar de lado quem muito fez pelo Botafogo.

Sendo assim, e mantendo meu compromisso de falar um pouco sobre a história do alvinegro aqui no Fala Glorioso, vamos ver hoje um pouco mais desses craques que, apesar de gloriosa história no Botafogo, não são tão lembrados pelo nosso excesso de ídolos. Mas, como são tantos os craques e ídolos que vestiram a gloriosa camisa alvinegra, faremos essa lista em algumas partes. Esta é a primeira delas.

CARVALHO LEITE

Atacante voluntarioso que jogou no Botafogo nos anos 30 e 40, Carvalho Leite foi personagem do primeiro texto desta coluna. Foi o maior artilheiro da história do Botafogo durante muitos anos, até ser superado por Quarentinha. É, inclusive, o segundo maior artilheiro da história do alvinegro até os dias de hoje, com 276 gols em 323 jogos. Foi o principal jogador do fantástico time que o Botafogo montou na década de 30, conquistando um feito inédito que jamais foi repetido na história por nenhum outro clube do Rio: o tetracampeonato carioca (1932/1933/1934/1935). Também foi campeão do Campeonato Carioca de 1930 e o Torneio Início de 1934 e 1938.

Jogou futebol por 12 anos, sendo todos pelo Botafogo. Ao encerrar a carreira de jogador precocemente após uma lesão, continuou a prestar seus serviços para o clube da estrela solitária por mais de cinquenta anos. Foi médico do time e chegou até a assumir como treinador da equipe por algumas vezes nas décadas de 40 e 50.

Disputou 25 jogos pela Seleção Brasileira, marcando 15 gols. Foi convocado também para o scratch canarinho para as Copas do Mundo de 1930 e 1934.

PATESKO

Contemporâneo de Carvalho Leite, também fez parte da conquista do, até hoje inédito, tetracampeonato carioca e todos os demais títulos daquele time fantástico. De origem polonesa, foi um ponta-esquerda de extrema habilidade que disputou 237 jogos pelo Botafogo, marcando 102 gols.

Nascido em Curitiba, passou quase toda a carreira em General Severiano, tendo curtas passagens antes de chegar no clube pelo Palestra Itália do Paraná, Força e Luz do Rio Grande do Sul e pelo Nacional do Uruguai. Chegou a disputar uma partida amistosa usando a camisa do Atlético Mineiro quando era jogador do Botafogo, mas nunca teve qualquer tipo de vínculo com o Galo.

Disputou 34 partidas pela Seleção Brasileira, incluindo as Copas do Mundo de 1934 e 1938, marcando 11 gols.

ROBERTO GOMES PEDROSA

Outro que fez parte do timaço que o Botafogo teve na década de 30, conquistando também o inédito tetracampeonato carioca. Foi o goleiro titular do Botafogo de 1930 até 1938, quando transferiu-se para o São Paulo. Reza a lenda que jamais aceitou receber qualquer tipo de remuneração para jogar futebol, assinando contratos em branco e alegando que fazia aquilo por amor.

Jogou no São Paulo nos dois últimos anos de sua carreira, aposentando-se em 1940. Continuou, porém, ligado ao clube do Morumbi após a sua aposentadoria, chegando a ser presidente do mesmo em 1946. No ano seguinte, foi presidente da Federação Paulista de Futebol, tornando-se um dos mais prestigiados dirigentes da história do futebol brasileiro. A praça em frente ao Estádio do Morumbi tem seu nome por homenagem, assim como o Torneiro Roberto Gomes Pedrosa, que antecedeu o Campeonato Brasileiro como competição nacional.

Disputou 19 jogos pela Seleção Brasileira, incluindo a Copa do Mundo em 1934, a qual ele foi convocado enquanto jogador do Botafogo.

LEÔNIDAS DA SILVA

Quem não conhece o Diamante Negro? O inventor da bicicleta? O maior ídolo e a maior referência do futebol brasileiro até o surgimento de Garrincha e Pelé? Todos conhecem. O que muita gente não conhece é que Leônidas da Silva também jogou pelo Botafogo nos anos 30, no já tão repetido time espetacular de Carvalho Leite e cia. Por pouco tempo, é verdade. Mas por tempo suficiente para sentir o gostinho de ser campeão pelo Glorioso, em 1935, no último título daquele tetracampeonato.

Fidelidade a clube, aliás, não era um ponto forte de Leônidas. No Rio de Janeiro, onde nasceu, jogou por diversos clubes: São Cristovão (onde iniciou a carreira e dá nome ao estádio do clube), Bonsucesso, Sport Clube Brasil (extinto clube carioca), Vasco da Gama e Flamengo. Jogou também, no início de sua carreira, por clubes de outros estados com menor expressão futebolística, como o Sul América (Espírito Santo) e o Sírio e Libanês (Goiás). Além disso, teve uma rápida passagem no futebol uruguaio, jogando pelo Peñarol. Mas, sem a menor sombra de dúvidas, a sua passagem mais marcante foi pelo São Paulo, onde conquistou um pentacampeonato paulista e jogou até o fim de sua carreira. O único fato, inclusive, que não o faz ser lembrado como um dos mitos da história do Botafogo é ter sua imagem extremamente ligada ao tricolor do Morumbi, por todo o sucesso que teve por lá. Muitos dizem, e com razão, ter sido ele o maior jogador daquele clube. E nós botafoguenses, com dezenas de craques que poderiam ser os melhores da história de vários times grandes, não vamos disputá-lo.

Participou de duas Copas do Mundo, em 1934 e em 1938. Da última, inclusive, sagrou-se artilheiro e melhor jogador da competição. Ao todo, foram 37 jogos pela Seleção Brasileira, marcando 37 gols, uma da maiores médias de gol por jogo da história.

OSVALDO BALIZA

Goleiro titular do Botafogo por quase uma década, entre 1943 e 1952, Osvaldo tinha uma característica marcante: a sua altura de 1,91m. Naquela época era raro encontrar alguém com tamanha estatura nos campos de futebol. Pelo Botafogo foi bicampeão de aspirantes em 1944 e 1945, campeão do Torneio Início de 1947, campeão carioca de 1948 e campeão do triangular de Porto Alegre em 1951.

Foi no título carioca de 1948, porém, que Osvaldo teve grande destaque. O Vasco da Gama possuía um time excelente, chamado de “Expresso da Vitória”, que dominava o cenário carioca da época. Naquele campeonato, o adversário da final era justamente esse time, considerado amplo favorito por conta de sua qualidade. Osvaldo, porém, não permitiu que o time de São Januário fosse campeão, com uma atuação fantástica. O Botafogo, que jogara quase todo segundo tempo com um homem a menos devido a contusão do zagueiro Gérson (naquela época não havia substituições), conseguiu o feito de ganhar a partida pelo placar de 3 a 1, com o estádio de General Severiano completamente lotado. A atuação brilhante de Baliza foi determinante para a conquista do título, onde as manchetes dos jornais estampavam: Osvaldo trava o “Expresso da Vitória”.

Pela Seleção Brasileira, Osvaldo foi Campeão Sulamericano em 1949 e Campeão Panamericano em 1952.

PAULINHO VALENTIM

O raçudo centroavante chegou ao Botafogo trazido por ninguém menos que João Saldanha, após ter sido bicampeão mineiro pelo Atlético em 1954 e 1955. Aqui chegando, não somente sagrou-se campeão carioca de 1957 como também foi determinante para tal feito. Marcou 5 dos 6 gols da goleada humilhante aplicada pelo Botafogo, de 6 a 2, sobre o Fluminense naquela final. Um desses gols, inclusive, foi feito de bicicleta. Paulinho Valentim foi, além de campeão, artilheiro deste mesmo campeonato carioca de 1957, com 22 gols.

O time do Botafogo de 1957 era algo impressionante. Tinha, além do próprio Paulinho, jogadores do quilates de Nilton Santos, Didi, Garrincha e Quarentinha. Pelo Glorioso, Valentim disputou 206 jogos, marcando 135 gols. Tal desempenho impressionante o levou a Seleção Brasileira, pela qual disputou cinco jogos, marcando cinco gols. Tal feito foi alcançado no Sulamericano de 1959, onde encantou os argentinos que não mediriam esforços para leva-lo, posteriormente, ao Boca Juniors.

Era um boêmio convicto. E assim foi desde os tempos de Atlético Mineiro até os áureos anos 50 da boemia carioca. Tal boemia inclusive, de acordo com quem vivenciou a época, o impediu de ter resultados ainda maiores em seu futebol ou, ao menos, uma carreira mais longeva.

Contratado pelo Boca Juniors em 1960, não partiu para Buenos Aires sem antes ir buscar em Belo Horizonte sua antiga namorada de juventude. Tal namorada era Hilda, nada menos do que a mulher que inspirou o escritor Roberto Drummond a compor a personagem Hilda Furacão, que mais tarde virou seriado na Rede Globo de Televisão. Hilda, belíssima conforme todos da época dizem, seguiu com o artilheiro para Buenos Aires.

Em terras platinas, Valentim foi um sucesso estrondoso. Campeão argentino pelo time portenho nos anos de 1962 e 1964, o jogador sagrou-se como o maior artilheiro do clássico contra o River Plate, maior rival do Boca Juniors. Foram 10 gols contra o rival em apenas quatro anos. Um recorde ainda não atingido.

Aos 33 anos e bastante debilitado por conta da boemia de sua vida, retornou ao Brasil onde teve passagem apagada pelo São Paulo. Tentou ainda dar continuidade a sua carreira no México, onde jogou no Atlante, time ao qual encerraria sua carreira. Após o insucesso no time mexicano, chegou a trabalhar no cais do porto naquele país, sendo depois levado de volta para Buenos Aires por amigos. Em solo argentino morreu pobre, em 1984, tendo seu sepultamento custeado pelo time de La Bombonera. E Hilda, sua musa dos áureos tempos de artilheiro, esteve ao seu lado até o fim.

RILDO

Em 1961, Rildo chegava ao Botafogo para fazer um teste. Aprovado, passou a ter um novo desafio para ao almejar time titular: o dono da posição era Nilton Santos. Como ser lateral-esquerdo de um time cujo concorrente é simplesmente o maior jogador da posição de todos os tempos? Mas, para a sua sorte, Nilton Santos estava mudando de posição: passaria a atuar como quarto zagueiro. Foi a deixa que ele precisava para exibir toda a qualidade que fez dele um dos maiores de todos os tempos em sua posição.

Atuando no Botafogo ao lado de ícones do futebol mundial como o próprio Nilton Santos, Garrincha, Quarentinha, Amarildo e Zagallo, Rildo foi bicampeão carioca em 1961 e 1962, além de conquistar o Torneio Rio-Sâo Paulo de 1962 e 1964. Ainda jogando pelo Glorioso foi convocado para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1966, antes de se transferir para o Santos.

No Santos também foi multicampeão jogando ao lado de Pelé, Clodoaldo, Pepe e Coutinho, conquistando o tricampeonato paulista (1967, 1968 e 1969), além de uma Supercopa Sulamericana e de uma Recopa Intercontinental. Voltou a ser convocado para uma Copa do Mundo em 1970, onde sagrou-se campeão. Jogou também no lendário Cosmos, time norte-americano que reuniu diversos craques mundiais, como Pelé, Beckembauer, Carlos Alberto Torres e outros.

SEBASTIÃO LEÔNIDAS

Considerado por muitos que o viram jogar como um dos maiores zagueiros de seu tempo, Leônidas foi o criador da linha de impedimento. Iniciou sua carreira no América, onde foi campeão carioca de 1960, e chegou ao Botafogo com uma ardorosa missão: substituir ninguém menos que o gênio Nilton Santos, que encerrou a carreira atuando na quarta zaga.

Não decepcionou. Ao contrário, acabou sendo um dos destaques de uma das gerações mais fantásticas que o Glorioso já teve. Formou, ao lado de craques internacionais como Gérson e Jairzinho, o time que foi campeão de quase tudo que disputou. Venceu o Torneio Rio – São Paulo de 1966, foi bicampeão carioca em 1967 e 1968, foi bicampeão da Taça Guanabara nos mesmos anos (o Campeonato Carioca e a Taça Guanabara eram disputadas separadamente) e a Taça Brasil, o atual Campeonato Brasileiro, em 1968.

Ao todo, Sebastião Leônidas jogou 247 jogos pelo Botafogo, marcando apenas um gol. Ao aposentar-se como jogador, ingressou na carreira de treinador no próprio alvinegro, entre 1972 e 1973, dirigindo-o por outras duas oportunidades nos anos 80.

Jogou regularmente pela Seleção Brasileira entre 1967 e 1970, e chegou a ser convocado por Zagallo para a disputa da Copa do Mundo de 1970. Porém, acabou sendo cortado dias antes de embarcar para o México por causa de uma lesão. Fez parte da inesquecível “Selefogo” de 1968, onde a Seleção Brasileira jogou com 8 jogadores do Botafogo em seu time titular e goleou a Argentina por 4×1.

Como podemos ver, o Botafogo é um celeiro tão grande de craques que nominá-los se torna uma árdua e longa tarefa. Amanhã, falaremos sobre outros grandes craques que o Botafogo teve ao longo de sua história e, por ter tantos, acabam ficando de lado. Amanhã falaremos de figuras como Carlos Alberto Torres, Carlos Roberto, Roberto Miranda e Paulo César. Até lá!

Sobre o autor
Escritor, pesquisador e apaixonado por futebol. De família alvinegra, cresceu ouvindo histórias de Garrincha, Nilton Santos, Didi, Quarentinha, Zagallo, etc. Exigente, como todo botafoguense tem que ser, adora resgatar histórias e passagens que fazem parte da trajetória do glorioso.